Por Claudio Ferro (http://aeropsicodelismos.blogspot.com)

Uma notícia chamou minha atenção esses dias: Roger Waters estaria mantendo contato com David Gilmour e Nick Mason, na tentativa de ressuscitar o Pink Floyd para novos shows. Corro o sério risco de ser linchado pelos internautas floydianos fanáticos de plantão, pelo que vou dizer, mas… aí vai: Roger Waters não é o Pink Floyd. E se um dia foi, agora depois dessa não tem o menor respaldo para sê-lo.

Há dois anos, nós fãs do Pink Floyd, perdemos nosso Richard William Wright, um excepcional músico e – arrisco dizer – segunda força criativa dentro da banda. Duvida? Então arremesse para bem longe seu orgulho ou pretenso conhecimento sobre o grupo londrino e ouça atentamente os teclados de Mr. Wright. Comece por “Remember A Day”, passe por “Echoes”, e se deixe levar pelo belo solo de piano de “Wot’s… Uh the Deal”. Por fim, ouça “Shine on You Crazy Diamond” completa e finalize a viagem com “Summer 68” e o álbum Dark Side of the Moon.

É do conhecimento de todo fã do Pink Floyd que se preze, que Wright foi demitido de forma humilhante pelo Sr. Roger Waters, durante as gravações de The Wall. Esse senhor, que realmente possui os louros de ser um dos grandes compositores do rock em todos os tempos, do alto de sua arrogância, deu o cartão vermelho ao tecladista. Basta sabermos disto para entendermos porque a relação entre os dois nunca mais foi a mesma.

Depois que Waters abandonou o barco em 1984, David Gilmour resolveu voltar às cargas com o Pink Floyd. Ou pelo menos tentou. Sim, porque após uma terrível batalha com Roger Waters nos tribunais, Gilmour lançou (ao lado de Nick Mason) A Momentary Lapse of Reason (1987). Chega a ser constrangedor para qualquer pessoa que conheceu a banda em seu período áureo, se dar ao trabalho de imaginar esse disco como sendo Pink Floyd. The Division Bell, álbum lançado em 1994, e já com Richard Wright oficialmente readmitido como membro da banda (inclusive com participação no processo de composição), é um pouco mais “tragável”. Mas ainda assim, lembra beeem de longe o velho Floyd.

O mesmo não se pode dizer da carreira solo do senhor Waters. Que grande obra Roger Waters nos deu desde 1984? Trata-se de uma voz retrógrada, parada no tempo. Usando e abusando de protestos absurdamente débeis. Roger Waters defende os botos da Amazônia? Grande coisa! A presidenciável Marina Silva e qualquer criança de doze anos também. O ex-líder do Pink Floyd vociferou contra o ex-presidente norte americano George W. Bush, em seus shows? Oh, Yolanda! Até a descerebrada da Pitty fez o mesmo. Foi-se embora a mente que mergulhou na mente humana e em suas paranóias, no célebre Dark Side of the Moon.

Roger Waters agora é o homem de negócios que leva The Wall (concebido originalmente como um manifesto contra o conformismo diante da tirania e da massificação, e mea culpa velado do próprio compositor) para a Broadway. E ainda há quem acuse David Gilmour de ser mercenário. Prefiro o “Gilmour Floyd” do show no Earls Court, em 1994 (P.U.L.S.E.) do que o espetáculo deprimente que foi a encenação de The Wall (fala sério! Roger Waters não tem outra idéia para trabalhar em cima, não, hein?) em Berlim. Fico com o show de Gilmour e Wright no Royal Albert Hall (registrado no DVD Remember That Night). Acho incomparavelmente mais relevante ver dois ex-Floyd, dividindo o palco com grandes artistas como David Crosby, Graham Nash, Phil Manzanera e David Bowie, num clima de evidente descontração, do que perder meu tempo assistindo Cindy Lauper (e seus latidos de cadela no cio), Ute Lemper (quem?), Thomas Dolby (quem??) e os sempre indigestos Scorpions. Desse show eu só não jogaria tomates podres no Van Morrison. E o que é aquele guitarrista (Rick Di Fonzo) deprimido ali, tocando com uma cara tão amarrada que nem em banda emo-suicida se vê?

Por fim, considero uma tremenda sacanagem, um chute na memória de Rick Wright e uma puta cara de pau que só um oportunista vulgar teria, que é desse senhor Roger Waters ao menos pensar em propor uma volta da banda sem seu grande tecladista e membro fundador.

A grande reunião definitiva do Pink Floyd em sua formação clássica, já ocorreu no Live 8, porque Bob Geldof, organizador do evento e o “Pink” do filme The Wall, conseguiu que Wright pusesse o rancor de lado e hasteasse a bandeira branca. E só aconteceu para esse show porque a causa era nobre, e não por dinheiro. Depois do Live 8, a mágoa de Wright com Waters continuou. E se vê claramente isso nos extras de Remember That Night, quando Gilmour (tido como outro grande desafeto de Waters) sai do galpão onde ensaiava para sua turnê e encontra-se com Roger rapidamente. Um cumprimento modesto, ligeira troca de gentilezas e um tchau. Enquanto isso, Wright segue ensaiando calmamente, mostrando que estava exatamente onde queria estar: só com sua música.

O Pink Floyd não precisa voltar. Os Beatles não precisarão “voltar” um dia. O Led Zeppelin e o Who deveriam parar onde estão. Os deuses da Grécia antiga se foram e não mais voltaram. Deixaram a vida seguir seu curso natural. Richard Wright, infelizmente se foi há dois anos (15 de setembro de 2008) vítima de um câncer. Deixemos sua valiosa memória intacta. Deixemos o Pink Floyd onde está.

Que o gigante descanse sobre as planícies verdejantes da Inglaterra, debaixo do velho e gordo sol, da lua com seu lado escuro, das estrelas que brilham como loucos diamantes, e do mitológico porco voador. Quanto ao senhor Roger Waters, que trate de se esforçar mais para criar sozinho outras obras primas como ele já provou que pode fazer. Se quiser fazer algo em parceria com seus antigos companheiros, será muito bem vindo. Mas sem tocar no nome Pink Floyd.

Se esse senhor quiser pilhar o glorioso nome desta banda, que seja amarrado numa árvore e uma águia venha todos os dias comer-lhe o fígado, como se sucedeu ao pobre e miserável Prometeu.

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